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sábado, 17 de janeiro de 2015

Sol e Lua

Sol e Lua

Ele gosta dela

ela gosta dele.
Todo mundo sabe
menos os dois.
Ele é rocha dura
ela, água mole.
Feitos sol e lua:
-se um acorda
o outro dorme.

Old Boy

Old Boy

Já era dezembro quando nasceu,
tarde demais para ser menino.
Foi-se logo ser homem,
com barbas crescidas de berço.
Trabalhava em companhia do sol,
nem ao menos conheceu descanso.
Completava os restos de noite,
com vagas lembranças do velho:
-Foram épocas de fome e frio,
sede de sangue e de guerra!
Temia morrer em batalhas,
pois o corpo negava terra.
Cresceu com desnutrição intelectual,
teve o órgão de sonhar atrofiado.
Quando já não lhe restavam unhas,
mordia os lábios ressecados.
Viajava sempre no escuro,
nunca via paisagens ou horizontes.
Decifrava as curvas de tinta,
sem saber escrever o nome.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Pertences


Pertences

Tudo o que tenho
cabe em duas estrofes.
Não sou muito de ter.

Mas tudo que sinto,
já não cabe mais aqui,
nesse mundo farto.


quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Eufemista

Eufemista

Eu?: Falar de mim mesmo
não é o mesmo que falar de mim.
Não é um eufemismo latente,
ou intento pueril vigente,
de me revelar em fragmentos
[minúsculas peças frágeis]
para um mundo desengrenado,
preenchendo um instante eterno
do perpétuo e infinito azul:
-impregnado em cegas paisagens.
Sou uma torre em desconstrução:
de baixo para cima.
Sem teto. Sem chão,
suspenso por mil olhares
numa tarde lunar anoitecida
encarando a contramão da vida.
@tsachetto 18*12*14

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Mal-estar (Malaise)

Mal-estar (Malaise)

Sinto ânsias, calafrios,
meio à falta de ar.
Minha garganta até coça,
quando evito falar.
É impulso passageiro,
caro de refrear.
Sou levado pelas pulhas
que cheguei a acreditar.
Raro engano que cometo,
tento me conformar.
Chuva turva ou geada,
não me deixam enganar:
-Sou refém das palavras,
que esqueci de calar!
Guardo gritos continentais,
a me dilacerar,
nesse peito entreaberto,
que entra vento e sai mar.
Compro guerras binárias,
sem balança ou pesar.
Pago o preço dobrado,
desarmado ao lutar.
Sou o réu destemido,
o último a delatar,
toda a vida perdida,
em prol desse mal-estar.

17-11-2014 by +Thomaz Sachetto 

sábado, 8 de novembro de 2014

Inoperância Inspirativa


Nem sempre as inspirações surgem na forma de palavras. Quando isso acontece, recorro a outros meios. É apenas um hobby, nada técnico nem virtuoso. Enjoy the silence.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Vozes Pálidas

...vozes pálidas
sussurram letargia,
destilam verbos amargos:
tais prosas e poesias.
Cravam em pele virgem,
vãs figuras, inanimadas.
Curando com vil cegueira,
falsas belezas rejeitadas.
Vozes, vozes tão pálidas,
recitam com frio temor:
vagos versos fugazes,
talham estrofes de dor.
Vozes mudas que ecoam
pelas paredes da memória,
tombando velhas estrelas,
ao recontarem histórias.
Vozes, pálidas vozes,
tiranas da contradição,
tão vagas atingem ouvidos,
despidos, sem nobre razão.

domingo, 19 de outubro de 2014

Decidir


Um pé após o outro, tocam o chão e as alturas. Direita, esquerda, centro, up, down. Flutuante, ancorado. Traduzindo: completamente perdido. A sensação é de andar em círculos espiralados por um labirinto vivo e inconstante, rodeado por inconvenientes verdades. Desabraços sendo servidos crus e sangrentos. Ataques cretinos lançados a cada minuto. Defender, ou manter a postura? No céu, estrelas e aves digladiam pelo mesmo espaço. No chão, a plateia ostenta as migalhas. Baixa pressão aqui, alívio ali, o desconforto é geral, assim como a falta de informação. Uma mão invisível paira sobre o coração do labirinto, insinuando uma possível saída. Liberdade liberal. Parar, ou seguir. Outra mão, agora de ferro, domina onde há o vazio, por ela cultivado, tentando, com vigor, manter o poder pelo poder e nada mais. Aparelhamento injusto: efeito dominó. A desconstrução anda a todo vapor e sua sujeira vai sendo varrida para debaixo de jalecos brancos, levados ao chão com o apoio da multidão, cega. Financiamentos injustos. Um cenário surreal. Alianças surreais. Escândalos surreais. Sonhar acordado. Manutenção de ideias estagnadas, remissão de pecados justificáveis, dedos sujos que apontam para no-velhos atentados. Para cada novo sol, uma nova surpresa. Instabilidade, insegurança, medo. A sensação de "segundo plano" é compartilhada pelos, "aqueles que nos assistem". Reta final, a hora chegou. O peso da decisão recai sobre as mãos de quem [precisa de pão], ou de quem almeja um futuro menos inverossímil. Pensar com a barriga, grande avanço? Pensar com a cabeça, grande atraso? Não, não vivemos mais no passado. De um modo geral, a mentalidade das pessoas mudou, assim como a dos partidos. "No que se refere" ao mundo, este mudou. Não sei apoiar a repetição da história atual, levada pela inércia e motivo de tanta revolta. Nós até fomos pra rua. Não sei ver o lado bom da laranja podre. Independente do rumo que se dispôs a opor essa condição, eu irei segui-lo, não por quem ele é, mas pelo marco que encerra esse ciclo, já quase sem saída.

"Políticos e fraldas devem ser trocados, de tempos em tempos, pelo mesmo motivo." Eça de Queiroz

Perdoados sejam meus neologismos.


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Pequenas Razões

Nos dias "conectados" de hoje, somos, a todo instante, bombardeados por uma infinidade de informações, sendo a maioria delas de fontes duvidosas ou incoerentes com o presente. Nossa imaturidade como seres pensantes perante o século XXI, não nos permite compreender que temos, há muito, a faca e o queijo na mão, literalmente, para resolvermos todos os nossos problemas de forma progressiva e coerente. O que nos impede somos nós mesmos, pois somos nossas próprias barreiras. Infelizmente, tornou-se fácil aderimos aos mais variados figurinos, para causarmos diferentes impressões, sem mesmo nos questionarmos o por quê de nos identificarmos com estes ou aqueles valores. Nos identificamos muitas vezes com certas correntes de pensamentos que podem nos garantir um rótulo social aceitável e nos deixar em posições favoráveis perante o círculo social o qual estamos inseridos, ou querendo nos inserir. Mas, apenas espelhar aquilo que os outros pensaram e absorver essas características externas, não torna ninguém especial. É essencial, além de buscar informações, saber ainda: ouvir os outros, filtrar o que se ouve, aceitar conviver com as diferentes formas de pensamento e pontos de vistas daqueles que estão à nossa volta, e, principalmente, pensar com a própria cabeça, de forma a processar a base de conhecimentos e convertê-la em algo consistente. É como diria o Pequeno Príncipe: “Que planeta engraçado! É todo seco, pontudo e salgado. E os homens não têm imaginação. Repetem o que a gente diz...”. Afinal, quem define o que é bom ou ruim não é o problema, pois o problema está em quem aceita aquilo que é imposto. As más ideias podem muito bem ser descartadas, porém as más atitudes provocam negativas alterações à realidade. Isso é uma questão para o bom senso de cada um, não uma prerrogativa para julgar o semelhante. O inconsciente coletivo é formado por incontáveis arquétipos que estabelecem as interações sociais em sua mais ampla e dinâmica atividade, sendo este o principal alvo dos constantes bombardeamentos citados, facilitando com que os conceitos e padrões sejam delapidados aos poucos, dando lugar a uma vastidão de mecanismos de ações incoerentes, tornando o próprio pensamento subjugado e auto ofensivo, em prol de uma utopia surreal que vai sendo absorvida aos poucos, por ser aplicada em doses homeopáticas.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Amoras

Amoras

Não tenho amores,
tenho amoras.
Sou raso em lamentos,
profundo em histórias.

E vou sendo feliz,
enquanto não abro mão,
do pouco que ainda restou,
de amoras em meu coração.

(thomaz sachetto 2014-10-01)

Semi-Contos #3 - O Diário de Judith


O Diário de Judith

É até pecado tocar nesse assunto, pois Judith faleceu há dois anos, deixando uma breve história gravada nas páginas de um diário cujos fragmentos se desdobram em minha memória desde o momento em que tomei conhecimento dos mesmos: 

Era albina e pobrezinha de tudo, quando bebê. Na infância, fez nome entre o corpo docente de mais de dez instituições por onde passou, como criança-problema. Seu destino era o mesmo das outras garotas que faziam parte da gangue. Estavam sentenciadas ao fracasso, pois eram comprometidas com o desleixo, chefiavam o desprezo e transpiravam revolta: até hoje não se sabe de que, ou de quem. As coisas começaram a mudar para Judith quando ela fez quinze anos e ganhou um diário. Até então, não sabia que sua imaginação poderia criar um mundo todo novo e diferente naquela alvura de papel. Nos primeiros dias não era possível compreender o que ela escrevia. Sua caligrafia era pobre, estilo garrancho, e não desfrutava de letras reconhecíveis no alfabeto. Era uma espécie de emaranhado de rabiscos emotivos, onde momentos negativos e estressantes eram representados graficamente por riscos mais bruscos e pontiagudos, enquanto que bons momentos eram representados por riscos amenos e arredondados. Era um diário bastante riscado. No primeiro mês ela descrevia apenas os fatos mais marcantes do dia, como as brigas com a mãe, os desentendimentos com o padrasto e a rotina da escola. Depois, começou a fantasiar uma realidade que não era a dela, com amigos inventados e uma aparente felicidade, ainda inexistente. Era uma fuga da realidade, onde admiradores secretos frequentemente deixavam pistas e o mundo todo aguardava por suas ideias. Com o tempo e a maturidade, começou a relatar seus dias como eles realmente eram e de uma forma muito particular. Anotava nomes de pessoas e lugares, trechos e títulos de livros e de canções, frases e às vezes até estrofes inteiras. Suas páginas começaram a ficar poucas, para suas necessidades. Foi então que veio o segundo diário. Com esse, Judith teve mais carinho e cuidado. Vez e outra relia as páginas do diário antigo. Logo veio o terceiro, o quarto, o quinto, o vigésimo diário. Judith tinha uma estante só de diários, que ocupava uma parede inteira de seu quarto. Quando completou vinte anos, resolveu escrever um livro. Sua primeira ideia fora negada. O editor que havia entrevistado a convidou para sair. Pedido aceito. Ela o levou para uma conversa, ele a levou para o altar. Foi o primeiro amor de Judith. Foi o quinto casamento do editor. Eles se deram bem por alguns anos, até Judith finalmente conseguir concluir um novo livro, enfim lançado. Sucesso certo. Se tratava do próprio diário de Judith, editado por ele e reformulado por ela. Passado alguns anos, o editor conheceu uma nova "Judith" de vinte anos e abandou a Judith do diário, agora já com trinta anos. Judith continuou escrevendo, tanto em seu diário, quanto para outros projetos. Levava uma vida modesta depois da mudança para o litoral. Conheceu novo amor e deu a luz a gêmeos. Seu primeiro livro lhe rendeu alguns trocados, porém, não mais que o segundo. Com a publicação do segundo livro, Judith começou a saborear o prazer de ser recompensada por fazer o que realmente gosta. E ela amava escrever. Não fosse o diário, ainda estaria nas ruas com as garotas da gangue, brigando por migalhas. Então conheceu o mundo. De Veneza à Amazônia, do Saara à Muralha da China. Judith faleceu por conta de uma complicação clínica, aos dezesseis, após a descoberta da leucemia. Essa talvez foi a história que ela gostaria de ter vivido, por isso a escreveu. Passava suas tardes enfurnada em seu quarto, fantasiando um futuro incerto para uma garota que nunca teve nada, apenas imaginação. Sua única herança deixada foram essas anotações que guardamos com muito carinho. Nesse instante, o padrasto faz uma pausa e a mãe desabou num pranto seco. O velório estava quase vazio.

@tsachetto postado originalmente em 31-08-2014

domingo, 5 de outubro de 2014

Um dia

Um dia,
não sei qual o dia,
será o dia!
E no dia em que esse dia chegar:
-Ah, o dia será!
Não como hoje em dia,
mas, como um dia que ainda virá,
[dia este sem igual,
ao fim de um longo vendaval.]
E enquanto esse dia não chega,
ler e escrever é o que faço,
sobre como será esse dia,
a fim de ocupar o espaço,
que esse dia ainda preencherá.
A espera pelo dia é longa,
muitos giros a Terra dará.
Em qual giro esse dia será?
Com qual cara acordará o sol?
Com qual terno a lua o receberá?
Enfim, como esse dia será?

(thomaz sachetto)

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Outubro


Seja Bem Vindo, Outubro!

A apenas três capítulos do final dessa história, talvez seja a hora de fazermos uma breve parada para retomarmos fôlego e repensarmos os planos. Cercados por promessas de recomeços e mudanças, estamos. Por hora, sóbrias lamentações. Mais um lance de escadas. Trinta e um degraus prestes a serem galgados pelos mais destemidos, ou, tropeçados pelos envaidecidos e indiferentes. Nem tudo é o que aparenta ser. Não confunda a vírgula, sentada no quinto degrau ao lado de uma interrogação, com um corrimão.

[inspiração, expiração]

Os ponteiros dos relógios estão alinhados, em harmonia, assim como a natureza em sua incessante transformação, dia após dia. Nesse ano teremos um adendo em especial, responsável talvez por um futuro melhor. Nesse mês teremos uma possibilidade a mais de, quem sabe, mudarmos os rumos. Mas, que rumos? Os da pura, nua e crua ilusão, isso sim. Cabe aos nossos dedos arriscarem saltar por novos paralelos cruzados, ou permanecerem na mesma marcha, indeléveis. Ano de responsabilidades e replanejamentos, para todos nós. E onde entram nossas responsabilidades? Talvez no direito que cada um tenha de fazer o que ache melhor pra si. Mas, lembrar-se de que sozinhos não somos ninguém, não faz mal. Egoísmos podem ser deixados de lado em tempos como esse. De que vale uma decisão errada? O critério é de cada um. Que venha outubro.
Sem ressentimentos?

Pode ser...

A meta é sempre trabalhar por uma boa retrospectiva.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Proibido

Proibido

Deviam nos proibir da falta de criatividade,
assim como nos proíbem de voar,
de respirar debaixo d'água,
ou até de ficar invisíveis.

Deviam nos proibir de ser infelizes,
assim como nos proíbem de ver o sol, à noite,
ou de tomar sorvete no inverno.

Enfim, devia haver uma lei,
que nos proibisse
da falta de riso,
da falta de amor
e da falta de sermos
nós mesmos.
(thomaz sachetto)

Um momento, por favor

Seriam os momentos mais importantes da vida aqueles que nos provocam maior excitação e colisão de sentimentos, mesmo que às vezes de fomas mais sutis? Certos momentos imprimem suas energias em nossa própria alma, personalidade e estado de espírito. Certas pessoas são capazes de nos provocar diferentes emoções a cada contato, a cada conversa, a cada pensamento. Certos livros, certos versos, certas canções e certos por quês são capazes de nos transfigurar.

Os melhores "bons momentos" são aqueles que só nós mesmos entendemos, do nosso jeito.

Imagine uma eternidade onde - depois de viver milhares de vidas e passar por milhares de sobrenomes e endereços diferentes-, nos é dada a opção de escolher os melhores momentos de cada uma dessas vidas e poder revivê-los para todo o sempre. Quais momentos dessa vida você guardaria?

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Winter Nights

Aqueles momentos tórpidos em que as palavras preferem silenciar e o jeito é recorrer a outros recursos para expressar as "maluquices" que transbordam de minha volátil imaginação. Nada que não pudesse esperar por mais dois dias, ou um, porém a ansiedade foi maior, como quase sempre.
Afinal, é pra isso que serve o blog.




(thomaz sachetto)

sábado, 13 de setembro de 2014

Semi-Contos #5 - À Deriva


À Deriva

Eu estava sentado à beira da calçada, rendido e já farto de ter que aceitar aquela ideia de que as pessoas mudam, mas suas memórias não. Seria impossível provar para alguém qualquer coisa sob aquela circunstância. Meu mundo tinha se desmoronado naquele dia. Estávamos há uns três meses sem nos vermos. Michelle me abandonou bem no momento mais difícil de minha vida e eu apenas deixei com que a distância nos separasse. Não tive como correr atrás e nem como mudar as coisas. Eu estava à deriva, como uma folha seca no outono, que cai do alto de um galho e vai sendo guiada pelo vento. Condenaram-me injustamente por participação indireta em um crime internacional. A empresa em que eu trabalhava estava envolvida com organizações mafiosas que desviavam recursos do governo. Eu era o bode expiatório de todas aquelas operações sigilosas que tive que assinar. Reformulei toda minha vida ao nos casarmos, para adaptar minha realidade à dela. Tivemos várias discussões prévias e influências familiares até entrarmos nos eixos. Chegamos ao nosso limite, até termos a prova de que o amor superaria todas aquelas barreiras. Tarde demais. Durante o julgamento ela estava inquieta. Sua expressão me dizia que não acreditava em mim, que não depositava esperanças em minhas palavras. Detive-me ao tentar convencê-lá. Então me vi cercado. Meu casamento estava em jogo e minha vida pública também. Tudo estava desabando à minha frente. Foi então que tomei a decisão mais errada de minha vida. Fugi para o México. Eu não tive culhões para enfrentar as verdades que me encaravam. Não tive saída. Meu nome entrou para a lista dos mais procurados pela polícia. Tenho sorte de não ter reproduzido outros, como eu. Na verdade, o mundo tem sorte disso. Era minha responsabilidade não contaminar ainda mais a espécie. Ao saber da notícia de que ela estava doente, recorri ao auxilio internacional na embaixada. Meu futuro dependia dela. Nenhum sucesso. Então voltei clandestinamente para meu país, em busca de vê-lá pela ultima vez. Ela não resistiu, era tarde demais para uma ultima e fracassada esperança. Fui detido na rua, ao me reconheceram alguns dias depois. Hoje cumpro pena perpétua e me arrependo amargamente de não ter enfrentado meus problemas reais na época em que tive a chance. As pessoas, elas mudam, mas suas memórias continuam, perpétuas, assim com minha pena. É tudo o que me restou.

domingo, 7 de setembro de 2014

Meu Eu "Sonhante"

Meu Eu "Sonhante"

Voa um passo de cada vez,

anda suspenso no ar.
Vê no escuro beleza
e se recolhe ao raiar.

[Num contratempo premeditado,
nunca me encontra acordado.]

Invade até pensamentos,

sempre presente entre os dias.
Ponte que liga tormentos,
a momentos de alegria.


(thomaz sachetto)

Semi-Contos #4 - Velho


Velho
(tl;dr)

"Eu sei lá quem são essas pessoas ou como elas vieram parar aqui". Ela me respondeu de uma forma seca, enquanto deitava vinho pela terceira naquela taça. Eu estava calmo, mas ela insistia em me tratar como se eu estivesse nervoso. Odeio quando fazem isso comigo. Era quarta-feira e eu havia chegado um pouco mais tarde do trabalho. Percebi um excesso incomum de carros estacionados na calçada da frente. Olhei pelas janelas e as luzes estavam acesas, todas elas. Então entrei e estavam dando uma festa. Não me lembro de qualquer ocasião em especial que justificasse aquilo. Eu não conhecia ninguém e ninguém me conhecia. Fui vagando entre os grupinhos de pessoas estranhas, já bêbadas, que iam se formando. Procurava pela minha mulher. Na cozinha, apenas algumas garotas. Nos quartos, ninguém. Na sacada do corredor, lá estava ela. Caminhei em sua direção. "Não me venha com essa cara, eu não sei de nada", e saiu andando. Sua silhueta ia se distanciando corredor adentro, enquanto eu permanecia parado, perplexo por não entender nada. Desci as escadas e ela estava pegando uma taça. "Pergunte à sua filha". "Irene está aqui?", me espantei. "Olha, não me questione mais nada". Ela estava se comportando de uma maneira muito estranha. Quando nos casamos, tratamos de não misturar as coisas. Minha filha do primeiro casamento não viria até nosso sobrado, assim como o filho dela, do primeiro casamento, também não. Ela tem sérios problemas com as crianças. Ta certo que Irene já cursava o último ano da faculdade e Fred o colegial, mas continuavam sendo nossas crianças. "Você viu Irene por ai?". Uma das jovens me encarou de forma estranha. "Sou o pai dela". "Oh, me desculpe senhor Walter, a Irene nos falou do senhor, disse que não se importaria se a festa fosse aqui". "Oh, certo, claro". Isso não estava nada certo. "E onde ela está?". "Ela não te contou?, Está na capital com a galera". "Oh, claro, a capital". Peguei o telefone e deixei a sala. No quarto, liguei para Irene. "Olha, quando puder me atender, por favor, me retorne, estamos com um probleminha aqui". Eu não sabia o que fazer. Tirar todo mundo a força? Cortar a energia elétrica? Chamar a polícia? Fiquei atordoado. Ela estava dançando a nossa música. Eu estava nervoso agora. Ela já sabia que eu ficaria assim, por isso estava me tratando daquela maneira. Veio até mim. "Já pensei em todas as possibilidades, vamos vencê-los pelo cansaço, entre no ritmo". Não estava acreditando no que ouvia. Não queria fazer nada. Peguei umas roupas no armário e entrei no banho. O barulho havia aumentado. A água da banheira acompanhava o ritmo da música, mas eu não. Desci as escadas de roupão e todos me encararam. Abri a geladeira, peguei um resto de comida fria e coloquei no microondas. Um minuto. Sentei-me de pernas abertas na mesa da cozinha, que dava de frente pra sala. Algumas garotas me encaravam, outras saíram da frente. Eu estava completamente indiferente à presença deles, mas ao mesmo tempo, cada movimento era calculado para irritá-los. Eu não queria inimizades com os amigos de minha filha, muito menos passar a imagem de ser um sujeito chato. Enfim, a noite deles não durou muito. Antes mesmo das duas da manhã todos já tinham ido embora. Só nos restou a sujeira daquele bando de desleixados que evitei conhecer pelo nome. Beth estava deitada no sofá da sala. Contei seis taças, o resto da garrafa ela virou no gargalo. "Nós vencemos", balbuciou desacordada. E pelo cansaço, pensei. Eu estava exausto. Fui até o sofá e peguei-a no colo. Subi as escadas e deixei-a na cama, coberta. Desci, tranquei as portas e voltei pra cama. Bafo de álcool ao meu lado, excelente. O sono não vinha, mas o sol veio. Meu telefone tocou. "Papai, chegaremos aí essa noite, vamos ficar até sábado". "Chegaremos?". "Olha, estamos comemorando a formatura de alguns veteranos e eu contava que o senhor não fosse se incomodar se usássemos seu sobrado por uns dias". "Claro que...". "Ok, papai, te amo, beijo, tenho que ir". A ligação caiu antes mesmo que eu pudesse completar o que tinha para dizer. Claro que eu me incomodaria, afinal a casa era minha. Droga, eu to ficando velho.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

João Jiló (por Maria Júlia Sachetto)

 João Jiló


Certo dia João Jiló falou com a sua mamãe assim mamãe eu estou com vontade de comer um passarinho frito aí o João Jiló foi a mata e pegou o seu estilingue e foi cassar um passarinho bem colorido e colocou o passarinho dentro do seu saquinho e foi para a sua casinha e depenou o passarinho e comeu e dentro da sua barriguinha o passarinho ficou e derepente a sua barriguinha explodiu e o passarinho saiu voando muito feliz fim.







A Autora
Minha priminha Juju.
(Ela até prometeu escrever mais, depois que postei. Se saísse um pouquinho do WhatsApp eu até botava fé, mas sabe como é.)
Foi um trabalhinho escolar apesentado no dia 26-08-2014.

domingo, 31 de agosto de 2014

Welcome Setembro

Welcome, Bienvenido, Benvenuto, Bienvenue, Willkommen, Bem vindo Setembro!

Os ares de Setembro despontam do alto da colina e chegam rasteiros ao meu jardim. Trazem consigo bons presságios de vida nova, enrustidos nas sementes que vestirão a primavera. 
Does it matter? 
O beijo de um colibri sela o início de uma nova estação. Tudo ganha sentido.
Do you really care? 
Então, os campos pálidos dão lugar à esperança e um espetáculo de cores renova a paisagem.
And so it is. 
O Sol se prepara para novos discípulos, enfeitados com pétalas dançantes e verdes folhas infantes. 
Enfim, Setembro all over the place.
(thomaz sahetto)


O Retrato

O Retrato


     Nós homens vivemos em um retrato. De certa forma, aqueles que pensam, ou seja, que refletem, conseguem ir um pouco além desse retrato. Porém, o consenso geral acaba criando conclusões baseadas somente nesse retrato e é comum vivermos limitados a isso. Olhar para a natureza agora, ou por cem anos seguidos, ainda sim é como olhar para um simples retrato, quase estático. A explicação para isso segue uma seguinte lógica matemática. Considerando que o universo possua seus 13,8 bilhões de anos de idade, aproximados pela ciência atual, e que, por alto, a raça humana (homo sapiens) tenha surgido há cerca de 500 mil anos atrás e ainda compararmos esses dados numa escala métrica, teremos a seguinte proporção: se a linha de tempo de existência do universo possuir 1 km (1.000 metros) de comprimento, nós, homens, teremos surgido nos últimos 3,6 centímetros (regra de três simples), ou menos. Basta clicar aqui para ter acesso a uma humilde time line que desenvolvi para ficar mais claro.
     Para se ter uma ideia, eu, nessa escala, teria ocupado apenas 1884 nanômetros, já que tenho 26 anos. É importante ressaltar também a estimativa de que cerca de 99,9% das espécies que já existiram na terra foram extintas, e hoje, a média de espécies vivas gira em torno de 8,7 milhões, incluindo aquáticas e terrestres, que são maioria. A vida é extremamente inconstante, imprecisa. Fazemos parte de um conjunto de seres dançando numa tampinha de refrigerante à deriva. Somos o resultado de uma sopa cósmica indigesta que desce descontentadamente pelo esôfago de um tubarão utópico agonizante. Somos vítima do niilismo existencial de átomos cansados de serem rochas inanimadas. Ainda assim, olhamos diariamente para esse retrato e não percebemos que tudo não passa de um piscar de olhos, por mais que o tempo pareça ser lento. Nos contentamos com essa fotografia quase inalterada, nessa paisagem viciada com esse grito ecoando numa moeda de um lado só, nesse status quo tedioso. Isso é o suficiente? Existe outra escolha? Há alguma saída?


     Independente de todas essas questões e afirmações, independente de todas as possibilidades que ainda não se realizaram, é assim que é a vida, é assim que o barco navega, é assim que os ventos sopram e é assim que as folhas o respondem, por mais conformista que isso possa parecer. Os números costumam nos confundir, dependendo da escala, mas ajudam a compreender uma série de hipóteses descartáveis. Não somos apenas o Pálido Ponto Azul que vaga espaço afora, ainda somos muito menos que isso. O homem, apesar de mal ter chegado, já está prestes a ser ejetado da nave-mãe antes mesmo do flash ser disparado. Somos novidade nesse cenário. Todo início é doloroso, a fase de adaptação exige muitas acrobacias e ainda estamos aprendendo a nos equilibrar. Somos uma resposta à nossa própria diferença, pois somos conscientes, diferentes de tudo em nosso redor. Somos um convite a ousar, por isso pagamos o preço dobrado, tanto na carne quanto na alma. Vemos a luz e a tomamos como verdade, porém a verdade se encontra na escuridão, assim como no silêncio. Passamos imperceptíveis por um universo indiferente a nós. Cumprimos nossa própria sentença em vão, acreditando em dias melhores. E esses dias chegam, como hão de chegar. E eles passam, como hão de dar lugar a outros. O ritmo comanda o palco. Trezentos e sessenta e cinco giros em torno de si mesma, enquanto apenas uma vez em torno do Sol. Assim também somos. Ou melhor, assim estamos. O processo é longo, o que vemos é pouco. O retrato contém a prova de tudo isso e compreende as características reais de como a natureza funciona, independente das nossas crenças e valores. O retrato é a prova de que o homem está em guerra com ele mesmo, em seu interior, muito antes da guerra se desdobrar para a realidade. O retrato é testemunha de que essa madrugada rendeu bobagens, derramadas em formas de palavras nessa página.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Maldito Coração


Maldito Coração

Coração mau agourado, esse o teu,
Emprestado, alugado, menos meu.

Bate em ritmos covardes,
A compor vil canção.
Cria cenas risíveis,
Faz tecer solidão.

Se há dia, por que não se convéns?
Se há noite, por que então se reténs?

Desmedido é o tempo,
Que a canção embalou,
Carregado pelo vento,
Que esse coração soprou.

Corro, ao pé de uma letra,
Sustentado em teu chão.
Há em mim desamparo,
Desse pobre coração.

(thomaz sachetto)

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Sapiência

Sapiência

Das coisas que sei, sou escravo,
e das que não sei, reservado.
Nos elos, que o tempo me leva,
o espaço se tece em hiato.

Em quantos poréns ou por quês,
- que me vestibulam a razão-,
irei encontrar as saídas,
do hiato dessa vastidão?

Fugir a galopes pra relva, ou,
esperar sentado na pedra?
Ser grato à aquela que me fia,
ou, buscá-la, em outra companhia?

Sapiência, me encontre a sós,
na vida, única e derradeira,
na marcha, que assim continua,
em silêncio, pelas prateleiras.
(thomaz sachetto)

sábado, 23 de agosto de 2014

O Peixe I



O Peixe I

Não coube no mar
o peixe sonhador,
o peixe pensador,
o peixe a nadar.

Fugiu de teu lar
o peixe errante,
o peixe dançante,
o peixe a amar.
http://letrasformampalavras.blogspot.com.br/
E veio pra terra
o peixe solitário,
o peixe imaginário,
o peixe que erra.

E aqui se encerra 
o peixe ferido,
o peixe exaurido,
o peixe da guerra.

(thomaz sachetto)

Die Young

Sobre: Morrer Jovem

Já é muito tarde pra sonhar?
Espero que não.
Sonho com a chegada do dia em que todos nós morreremos jovens. 
Não me refiro à quantidade, mas sim a qualidade,. 
Ser velho -diferente de ser idoso-, muitas vezes significa ser sábio e experiente, mas de sabedorias e experiências fechadas e individuais. Isso pode abrir uma grande fenda para a intolerância. Quando nos declaramos auto-suficientes e fechados em relação ao que sabemos, estamos automaticamente nos tornando limitados. Por outro lado, ser jovem não significa ter pouca idade, mas sim, ter a cabeça aberta e receptiva para novas idéias e experiências.


Dentro de cada pessoa, vive a criança que um dia ela foi.


Existem jovens de 90 anos, assim como existem velhos de 16. A juventude e a velhice estão nas atitudes. O fator determinante para uma pessoa se tornar velha está diretamente ligado ao seu comportamento. Quando eu for idoso, espero continuar apto para confrontar minhas próprias verdades. Não quero meus pensamentos petrificados, meu cérebro enferrujado e meus instintos atrofiados. Não quero contentamento, nem auto-desprezo, muito menos apatia.


Creio que o grande desafio para se manter um eterno jovem seja a superação: superar os efeito da idade, superar as rugas, superar as dificuldades de mobilidade, superar o enfraquecimento dos sentidos, o julgamento da sociedade e o curso natural da vida. Pode parece muito, mas o tempo nos ajuda a menosprezar certas condições que serão indiferentes para a busca da juventude. A juventude é um estado de espírito. As pessoas mais novas e inexperientes fazem um tremendo mau uso da juventude.


No processo da metamorfose, a borboleta, antes de voar, passa pelo estágio de casulo, para depois se libertar e conquistar o mundo

Já nós, homens, passamos por uma metamorfose inversa. Nascemos livres, como crianças, e vamos nos enclausurando com o tempo, até chegarmos ao ponto de nos trancarmos em nossos próprios casulos, ou seja, nossas próprias verdades, e nos abstemos de novas experiências. Se você se encontra em um casulo, pode ser que ainda nem tenha saído dele para conquistar o seu pedacinho no mundo. Mas, caso esteja nesse casulo há muito tempo e já certo de que não vale a pena sair, é por que já está velho, e pode ser tarde demais para morrer jovem.





Sobre o esquecimento...

Às vezes, uma exceção...

"O esquecimento, freqüentemente, é uma graça. Muito mais difícil que lembrar é esquecer! Fala-se de “boa memória”. Não se fala de “bom esquecimento”, como se esquecimento fosse apenas memória fraca. Não é não. Esquecimento é perdão, o alisamento do passado, igual ao que as ondas do mar fazem com a areia da praia durante a noite."
(Rubem Alves)

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Os Campos de Batalha


                                             Os Campos de Batalha

     De tempos em tempos, querendo ou não, somos confrontados pelas nossas próprias verdades. Nem sempre percebemos que isso acontece, mas, quando acontece, é como se um pequeno terremoto abalasse nossas estruturas, nos compelindo para duas alternativas: mudar ou continuar. 
     Se optarmos pela segunda, continuaremos sendo carregados pela previsível inércia em que já nos encontramos. Geralmente fazemos isso inconscientemente, pois é bem mais cômodo nos mantermos seguindo rumo ao que já estamos habituados e alcançar resultados pouco sazonais, por mais que isso não traga novidades. 
     Mas, caso esse confronto nos impulsione a mudar, sabemos que estaremos optando por pisar em um terreno desconhecido. Os resultados, aqui, dependem primeiramente de fatores internos, ou seja, daquilo que se encontra em nós mesmos. Nossas principais armas, nessa batalha, são nossas próprias experiências de vida, que podem nos trazer segurança e calma para lidar com possíveis situações imprevisíveis. 
     Estar preparado para novas situações é um fator determinante. Até mesmo o improviso exige preparo.

     E o que seriam esses confrontos? Bom, alguns são como “bolas de neve”, formadas por diversos motivos, desde omissões até erros repetidos. São produtos da lei de “ação e reação” e um contrabalanceamento natural das coisas, como são. Por exemplo, se hoje cometer uma injustiça com alguém ou consigo mesmo, estará abrindo um mar de possibilidades, para que no futuro, a reação se volte contra você: Nos tempos de escola, Joãozinho sempre humilhou Zezinho. Hoje, por acaso, Zezinho é dono de uma empresa e um de seus funcionários, o mesmo Joãozinho dos tempos de escola, passa uma vida de cão o tendo como chefe. Um outro exemplo seria a procrastinação: o fato de ir deixando responsabilidades se acumularem, sempre empurrando-as para depois, gera um enorme tumulto para solucioná-las posteriormente.

     No fundo, as “verdades” servem para nos confrontar, tanto intelectualmente, quanto fisicamente. A gravidade, constantemente nos confronta, fisicamente. Da mesma forma, nossas ações, como seres humanos, nos confrontam e podem ter um preço alto, caso não resolvidas. Dessa vida, só sai ileso quem nada viveu. Se tiver alguma pendência, ainda não resolvida, seja sob qualquer aspecto, apenas resolva. Os juros, cobrados pela vida, são bem maiores que os cobrados pelo banco, acredite. A própria consciência pesada já é uma parcela do pagamento. Se tiver que mudar, mude, se tiver que encarar, encare, se tiver que ser, seja. O tempo passa e a "bola de neve", enquanto alimentada, só faz aumentar o preço. Viver bem é viver leve. Viver leve é viver livre de tudo que pesa. Problemas pesam, livre-se deles.

domingo, 17 de agosto de 2014

Poemática


Poemática

Tudo que escrevo
é 99,9%
baseado em 
fatos imaginários.

(thomaz sachetto)

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Semi-Contos #1 - A Marcha Fúnebre


A Marcha Fúnebre

O velório estava cheio e eu andava entre os grupos que iam se aglomerando pela capela. Foi um dia nublado, de frio cortante. Em cada grupo, era sempre abordado, naturalmente, por um “eu lamento” ou um “meus sentimentos”. Apesar de vovô já ter completados seus 96, era como se alguém muito jovem tivesse partido. Ocupamo-nos, eu e meu irmão mais novo, de servirmos café quente aos que se aproximavam e de cumprimentarmos os que chegavam. Algumas senhoras soluçavam pelos cantos, outros senhores relembravam o passado. Eu não estava tão abalado - nesses momentos, alguém tem que ser forte-. Não sabíamos que vovô era tão conhecido assim. Ele havia deixado uma carta, para que papai lesse em algum momento do velório. Reunimo-nos em volta do corpo para prestarmos as últimas homenagens, quando papai abriu a carta, tocado pelas poucas palavras deixadas:
“Pareço velho, mas vos deixo tendo vivido poucos dias -verdadeiramente-, junto de si. Um confesso prematuro. Aqui ficam meus vícios, que a tudo me consumiram. Ou fui eu quem fugi? Assinado, José Carlos R. Fontes”
Então, os pregos selaram aquela tampa de madeira, seu novo lar. Todos acompanharam a marcha fúnebre, até a cova. Ele bebia. Bebia muito. Um alcoólatra. Nunca tinha visto vovô sem um copo de bebida na mão, sempre escondendo seus lamentos por trás de um sorriso pálido que o vício lhe oferecia. Ele nos fazia sorrir, nos contagiava. Cada encontro era uma festa, não havia tristeza. Vovó, apesar dos filhos e netos, sempre aparentou ser uma mulher fria, solitária. E era. Ela suportou todo o peso de estar ao lado dele. Eu sabia que o grande sonho de vovô era ser padre. E sabia que rompera os laços muito jovem com a igreja. E também sabia que quem se relacionasse com ele dividiria o fardo de tal desgosto. Ele era tudo, mas, ao mesmo tempo, era nada. Viveu uma vida que não era a dele. Fomos felizes às suas custas. Agora entendi sua carta. Lamento, vovô.

copyrights@thomazsachetto - baseado em fatos imaginários

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Imaginações Líquidas


Imaginações Líquidas

ou Minha Infertilidade Poética


Em qual porta baterias, se tudo desse errado? A quem confiaria teus intentos inconsoláveis? Onde te refugiarias? Estas são questões que poderiam te atingir a qualquer instante, pois a vida é como uma impávida folha seca, à deriva, num vendaval errante, hora levada por campos verdejantes, assolada por suaves brisas de orvalho, hora atirada a ultrajantes trevas, embalada por uivos longínquos expelidos por montanhas gélidas.

O que te faz feliz é algo real, ou imaginário? A que atribui tuas desilusões? Somos milhares e milhares, pesando sobre a mesma superfície, forjados no mesmo forno materno e banhados por um incongruente infinito, que nos abraça e nos preenche. Somos a prova de nós mesmo, feridos pelas batalhas que travamos por nos desacreditar. Somos o escárnio vivo e paralelo à austeridade poética de nossa própria existência transitória.

Os dias, que nos aquecem, são como a liberdade, trazida pela luz solar e guiada por teus raios, que trespassam às sombras de árvores que se projetam do solo, rumo ao desconhecido onde transitam nossas futuras e irremediáveis aflições.

As noites, são como um santuário, que abriga a Lua com teu batom celestial, viajando pelas faces do infinito e deixando fumegantes marcas de beijos estrelados por todo o Cosmos, de onde ceifamos verdades que nos convêm.

A razão de tudo isso pode estar entrelaçada com a não-razão, repousada sobre as páginas de um livro que ninguém jamais ousou folhear. É a antecipação concomitante de um “sim” do existir, precedido pelo “não” da inexistência, a essência do nada.

Mal Humor


Mal Humor

O sol estava feroz, como um cão domesticado;

e eu, de pileque, esperando quem quer que fosse
para me despedir, antes de sair dali.
Não queria sair sem que ninguém soubesse,
mas também, não queria que soubessem que saí;
Apenas me guardei, como se guarda um pão:
-até ficar velho, duro e seco.


(thomaz sachetto)

Um Porém Inexistente



Um Porém Inexistente

Éramos amigos do tempo,
e das coisas belas também.
Caminhávamos a passos lentos,
ao relento, desviando de olhares atentos;

Subíamos até o último degrau, por mil vezes:
-Cê me gritava lá de baixo, pois hora eu tava lá e cima;
-Eu te ouvia lá de baixo, pois hora cê tava lá em cima.

Vivíamos atados, como nó de marinheiro,
navegávamos, mesmo sem rumo, ou sem remos.
E reluzíamos, feito ouro.

Fomos o sustento, um do outro,
assaltados por nossos próprios abraços.

Até que a chama se apagou,
e fomos lançados ao mar.
Atingidos no peito,
Isentados de amar.

Cansei de ser teu sol,
como cansastes de ser minha lua.
Cansamos de ser espetáculo,
para uma Terra no leito de morte.
Saímos por ai, para sermos nós mesmos,
por nós mesmo e mais ninguém,
E fomos tudo isso,
porém....

(thomaz sachetto)
p.s.: To numa fase preto & branco.

Egoísmos


Egoísmos


Encosto-me, próximo ao peito,
a ouvir teu coração bater,
e no escuro, desvendar teus labirintos.
Mas em tempo, deixas-me.
Discordo da (não distante) partida,
mas alegro-me.
Prorroga em mim a respiração,
ao saber dos cuidados, por ti velados.

Discretamente me afasto,
deixo-te livre, pra sonhar.
Calamo-nos.
São as vezes que nos entendemos.

Quando beijo teu céu noturno,
com as mãos cheias de estrelas,
me guardo, para o teu retorno.

Respondo às tuas palavras, silenciosas,
contemplo teus olhares, indiferentes,
teus medos inventados.

Só magoa-me a lembrança,
do teu toque frio, tão frio,
gelado.

(thomaz sachetto)