
A Tíbia Desnuda
Enquanto a garota gritava e esperneava, amarrada à uma cadeira de ferro, um homem, que trajava um avental branco, ainda calçava lentamente um par de luvas, lançando um sinistro olhar sobre os ombros, após o estalar de um trovão naquela noite sombria. Estendeu a mão esquerda sobre um molho de chaves, que pendia sob um suporte na parede e levou-as até um grande armário metálico, no outro canto da sala.
Encarou a garota mais uma vez, enquanto que de suas costas jorrava um suor amarelado. Seus passos desmedidos deram início a uma desconcertante caminhada, rumo à pobre garota, que, já sufocada em seus próprios suspiros, rendia-se a cada passada, aterrorizada. O relógio badalou meia noite e os fortes braços do homem se esticaram vorazmente sobre sua perna esquerda, atando-a, esticada junto a uma viga.
A garota perdeu os movimentos da perna ao receber um torniquete firmemente torcido à base do quadríceps, dando um tom arroxeado em toda sua perna. Seus prantos foram em vão.
O homem então se agachou, buscando com as mãos o objeto que se assemelhava a um ralador de legumes, passando-o levemente sobre a panturrilha da menina, que ainda pôde sentir pequenas lascas de carne se desprenderem. Seus olhos, umedecidos por lágrimas, recusavam-se a abrir. Alguns minutos se passaram e quatro golpes, agora mais firmes, foram cravados bem no meio da espessa panturrilha da garota, deixando grande parte exposta, em carne viva. Suas lágrimas já alcançavam as maçãs do rosto e algumas respingaram em sua roupa. Seus gritos foram emudecidos por uma toalha, empurrada garganta adentro e abafado pelo trovejar. O pânico havia tomado seus sentidos.
Ele então decidiu expor a carne da parte superior da perna, cravando mais uma vez o ralador, agora na canela, raspando com maestria e fazendo aumentar a poça vermelha na chão, do sangue ainda não coagulado que gotejava intermitentemente, cada vez mais consistente. Mais alguns golpes, não tão firmes, e eis que brota a branca e lisa tíbia, feito marfim polido, reluzindo bem no meio da canela da garota. O homem continuou ralando a canela, que agora já expunha a parte frontal inteira da tíbia, ensopada por um rubro intenso do sangue fresco. A garota entrara em estado de catalepsia com espasmos, perdendo a consciência.
Nesse momento, ele se levanta e vai em direção ao rosto da menina, pressionando sua face contra o avental, alisando seus cabelos e passando um lenço em sua testa. Em seguida, bebe um copo de água que estava sobre a bancada de instrumentos. Agora ele retorna ao chão e raspa com firmeza uma parte do osso, obtendo pequenas lascas, talhando uma espécie de contorno tribal artístico, que logo após cobriu com uma tinta preta que ressaltava as marcas talhadas. Decidiu então deixar o ralador de lado. Agora, com a espécie facão cirúrgico já empunhado, desatrelou toda a carne em torno da canela da garota, deixando ossos, nervos e algumas veias e artérias expostas, com uma precisão cirúrgica.
Percebeu então que era hora de reaplicar os anestésicos, apesar da garota permanecer desacordada. Alguns minutos se passaram e o homem agora suturava a perna mutilada, nas bases do o pé e do joelho, deixando-a como um tom de brinquedo de pano semi-costurado. Após algumas horas, a garota retoma sua lucidez e se encontra deitada sobre uma cama. Permaneceu atada ali por mais algumas semanas, sendo alimentada diariamente pelo aterrorizante açougueiro de avental branco, sem muito parecer entender.
Numa bela manhã de domingo, percebeu que amanhecera sem quaisquer amarras. Havia no quarto um grande espelho de corpo inteiro, que a deixou curiosa. Levantou-se lentamente, se espreguiçando e sentando-se sobre a cabeceira da cama.
De longe ouviu-se um grito:
-Eca!
O homem, atônito, sobe os lances de escada e avança até o quarto, com suas desmedidas passadas, logo perguntando:
-E então, o que achou?
-Nojento.
-Mas...
-Sim, eu sei, ficou muito bom, seu trabalho é excelente, mas não deixa de ser nojento.
-Você foi minha cliente mais extremista e radical.
-Imaginei que fosse. Apenas não estava mais afim de tatuagens ou modificações comuns.
-Mas isso. – Encarou mais uma vez a perna da garota. - Isso eu quase vomitei para executar.
-Pois é, também imaginei que não seria fácil.
-Ok, você já está sob alta e pode voltar para casa, andando.
-Mas, e a outra perna?
-Ainda pensa em fazer na outra?
A garota lançou um olhar para sua perna desfigurada, que apesar de conter um arte sombria contemporânea, ainda sim causava calafrios descomunais. Tomou mais um tempo, respondendo logo em seguida:
-Talvez no braço, mas não hoje. Melhor eu ir nessa!
-Tudo bem, está tudo certo então, foi um prazer.
-O prazer foi todo meu, ou melhor, a dor né.
-Agoniante viu.
-Pois é, fui.
Fim... Tenso.
(thomaz sachetto)
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