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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Semi-Contos #1 - A Marcha Fúnebre


A Marcha Fúnebre

O velório estava cheio e eu andava entre os grupos que iam se aglomerando pela capela. Foi um dia nublado, de frio cortante. Em cada grupo, era sempre abordado, naturalmente, por um “eu lamento” ou um “meus sentimentos”. Apesar de vovô já ter completados seus 96, era como se alguém muito jovem tivesse partido. Ocupamo-nos, eu e meu irmão mais novo, de servirmos café quente aos que se aproximavam e de cumprimentarmos os que chegavam. Algumas senhoras soluçavam pelos cantos, outros senhores relembravam o passado. Eu não estava tão abalado - nesses momentos, alguém tem que ser forte-. Não sabíamos que vovô era tão conhecido assim. Ele havia deixado uma carta, para que papai lesse em algum momento do velório. Reunimo-nos em volta do corpo para prestarmos as últimas homenagens, quando papai abriu a carta, tocado pelas poucas palavras deixadas:
“Pareço velho, mas vos deixo tendo vivido poucos dias -verdadeiramente-, junto de si. Um confesso prematuro. Aqui ficam meus vícios, que a tudo me consumiram. Ou fui eu quem fugi? Assinado, José Carlos R. Fontes”
Então, os pregos selaram aquela tampa de madeira, seu novo lar. Todos acompanharam a marcha fúnebre, até a cova. Ele bebia. Bebia muito. Um alcoólatra. Nunca tinha visto vovô sem um copo de bebida na mão, sempre escondendo seus lamentos por trás de um sorriso pálido que o vício lhe oferecia. Ele nos fazia sorrir, nos contagiava. Cada encontro era uma festa, não havia tristeza. Vovó, apesar dos filhos e netos, sempre aparentou ser uma mulher fria, solitária. E era. Ela suportou todo o peso de estar ao lado dele. Eu sabia que o grande sonho de vovô era ser padre. E sabia que rompera os laços muito jovem com a igreja. E também sabia que quem se relacionasse com ele dividiria o fardo de tal desgosto. Ele era tudo, mas, ao mesmo tempo, era nada. Viveu uma vida que não era a dele. Fomos felizes às suas custas. Agora entendi sua carta. Lamento, vovô.

copyrights@thomazsachetto - baseado em fatos imaginários

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