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sábado, 28 de dezembro de 2013

Conto


Parte 1

Era tarde da noite, e o único som que se podia ouvir daquela rua sem saída era o dos passos desconcertados de um homem, que vagava sorrateiramente. A cada poste de luz avançado, sua visão percorria os arredores com um ar desconfiado. Chegando ao seu destino - uma porta metálica azul, no fim da rua -  bateu por três vezes seguidas:
            - A senha. – Berrou uma voz vinda do interior, fazendo com que o homem novamente corresse os olhos pela penumbra, em busca talvez de testemunhas auditivas ou oculares.
            - Cabo de guerra. - Falou, tornando a checar sua posição.
            A porta se abriu e rapidamente se esgueirou corredor adentro. Logo de início fora revistado por outro homem, que guardava a entrada do extenso corredor. Deixou com ele seu aparelho celular. Seguiu então até a porta B140. Tirou de um de seus bolsos do paletó uma chave que em seguida usou para abrir a porta. Antes de girar a maçaneta, fechou os olhos e, como que numa espécie de ritual, respirou fundo e sussurrou para si mesmo algumas palavras. Agora a porta já estava aberta e o homem adentrara no pequeno cômodo, ascendendo em seguida um interruptor na parede.

O cômodo não possuía mais que um armário, uma mesa de canto com alguns objetos por cima, um frigobar e outra cadeira simples de madeira e uma poltrona, onde ele se sentou. Suas mãos tremiam. Após alguns minutos, com o semblante estarrecido, ele se levantou. Alcançou seu paletó que havia apoiado numa cadeira e vestiu-o novamente, ajustando a roupa em seu corpo. Saiu e trancou a porta, voltando com a chave para o mesmo bolso do paletó. Ao passar pelo homem da entrada, recolheu seu aparelho celular e o agradeceu. Era possível observar a rua através de um pequeno monitor que transmitia as imagens de algumas câmeras externas. Certificando-se de que não havia ninguém por ali, abriu então a porta azul e refez seu trajeto até o início da rua sem saída, avançando de poste em poste sempre a procura de, talvez, testemunhas.
Ao dobrar a esquina, se deparou com uma tropa de infantaria que havia tomado as ruas da cidade há algumas semanas. Sua primeira reação foi dar meia volta e seguir na direção oposta, mas chegou à conclusão de que essa seria uma atitude muito suspeita e atrairia a atenção dos soldados. De qualquer forma, seus passos se alentaram e novamente suava frio. Um dos soldados estava fazendo o reconhecimento digital dos pedestres que ali passavam, em busca de pistas sobre o paradeiro de um líder político do país vizinho que estaria se escondendo nas ruas da capital. Ao perceber a presença do homem, o soldado caminhou tranquilamente em direção a ele, pedindo gentilmente que apresentasse seus documentos e que o acompanhasse até uma viatura. O homem então retirou sua carteira de um dos bolsos do paletó, enquanto acompanhava o soldado até o veículo.
- O senhor não é daqui? – Perguntou o soldado, desconfiado de seu leve sotaque.
- Não, mas moro aqui há mais de 45 anos, sou praticamente um cidadão nato.
- Ok, senhor, pressione a palma de sua mão direita contra essa tela, por favor. – Já num tom menos elegante. Isso queria dizer que eles rastreariam cada passo dado pelo homem nas últimas quarenta e oito horas, mas preferiam chamar de “procedimento regulamentar de acompanhamento a suspeitos”. Em épocas como essa, qualquer um era considerado suspeito, diziam.
Após alguns minutos o soldado recebera um comunicado pelo rádio e convocou um de seus recrutas para perto de si. Os dois conversam e se aproximam do homem, enquanto ele aguardava calmamente pelo que estava por vir.
- Queira nos acompanhar até a S5 senhor?
- Pois não. - A S5 era a “Sede da Infantaria do 5º Batalhão”, localizada no centro da capital. Não estavam longe de lá, mas em tempos como este, isso significa voz de prisão preventiva, ou até coisa pior.

Parte 2

Alguns anos atrás. Era inverno, e a família do homem se reunia na sala de espera do hospital central, enquanto aguardavam ansiosamente pelo médico. Em poucos minutos receberiam uma notícia que mudaria tudo. O homem abraçava a esposa enquanto uma de suas filhas chorava desconsoladamente, sendo acudida por uma das tias. Tudo que diziam era que iria ficar tudo bem, mas, no fundo, sabiam que não.
Eis que a uma porta de correr se abre e surge dela o médico responsável, com um semblante abatido. Todos pararam em frente ao Doutor para receberem o pior. Após os cumprimentos formais, o médico prosseguiu:
- Vejamos bem, nós analisamos e reanalisamos o caso da filhinha de vocês. Estamos fazendo o possível para que... – Nesse instante o médico buscou palavras. – Para que ela saia dessa situação, mas infelizmente...
- Diga doutor.
- Infelizmente foi detectado um grande número do agente infeccioso em sua corrente sanguínea, o que criará algumas barreiras para o tratamento e...
- Doutor, quanto tempo ela tem? – Interrompeu o homem.
- Veja bem, em casos como estes não asseguramos em mais de três meses a expectativa de sobrevida, devido ao quadro clínico.
- Pois bem, há algum tratamento que funcione em nosso país? – Perguntou o homem.
- Ainda estamos engatinhando por esses campos. A maioria das soluções são apenas experimentais. Mas, posso lhes adiantar uma coisa, nossos vizinhos possuem métodos eficazes para esse tratamento, porém, seria quase impossível transpor a barreira para chegar a tempo com ela até lá, e além do mais, teriam de colocá-la na fila de espera, o que aumentaria mais ainda o risco dela não suportar.
- Sem mais Doutor, só preciso de um tempo para me organizar.
O homem então saiu do hospital sozinho, pedindo para que seus familiares aguardassem por sua volta. Foi até um posto de telefone próximo e discou alguns números que guardava na memória:
- Pois não.
- Sou eu, a resposta é sim.
- Sim?
- Amanhã partiremos.
- Certo, mandaremos alguém para recepcioná-los.
- Afirmativo, seguiremos então o que foi combinado. – E desligou o telefone subitamente, com um ar de desespero no rosto.
Ao retornar para o hospital, o homem novamente solicitou a presença do Doutor, mas desta vez, em particular.
- Por favor, preciso que prepare a transferência de minha filha para o dia de amanhã. Partirei com ela no voo do meio dia.
- Perfeitamente, estaremos providenciando tudo. O senhor está tomando a decisão mais sábia para o momento. Espero que corra tudo bem.

Parte 3

O homem partiu com a garota no voo do meio dia, alcançando território estrangeiro em menos de duas horas. Ao tocar o solo, percebeu que haviam dois carros à espera deles no hangar. Saindo do avião, foram separados, e cada um recebeu uma cópia de documentos de identificação novos, tomando rumos diferentes. A garota foi encaminhada para o hospital militar, como disseram, para uma unidade especializada em reverter o quadro da doença que fora produto da guerra entre as duas nações. A doença, uma espécie de infecção não contagiosa que degenera o cérebro e vai reduzindo aos poucos a funcionalidade dos sentidos. O quadro da garota já estava bastante avançado e sua única esperança seria o tratamento reversivo intenso, criado por engenheiros geneticistas da nação inimiga.
O homem era também um engenheiro, porém este de mísseis, e fora contratado pelo exército inimigo para concluir o desenvolvimento de uma nova arma biológica de larga escala. De início, sua resposta fora negativa, porém, após o adoecimento de sua caçula, ao ser exposta ao vírus da guerra, o homem acabou tendo que aceitar trabalhar a favor do exército inimigo. O veículo andou por algumas horas no meio do nada.
Chegaram ao pátio do que parecia ser um grande armazém. O homem aguardava dentro do carro enquanto alguns soldados se comunicavam entre si. O carro então avançou até o portão principal, onde todos desceram e adentraram em um grande galpão. Foram encaminhados então para um elevador industrial, onde homens armados operavam as alavancas. Após descerem por sete andares, o elevador parou e os soldados encaminharam o homem para uma pequena porta, onde, do outro lado, o general chefe das operações da construção da arma biológica o aguardava:
- Senhor F., quanta honra. – Falou o general, um homem já de meia idade, com ar de superioridade.
- Sim senhor. Quando começo?
- Então está mesmo disposto a prosseguir.
- Senhor, sabe do quadro de minha filha. Eu preciso...
- Sua filha estará em boas mãos, não se preocupe. Quanto a você, nenhum contato com o mundo exterior e isso inclui família. Sua identidade foi trocada quando pisou em nosso território, terá aulas de nosso idioma para perder um pouco do sotaque até que possa andar pelas ruas de nosso país como um de nós. Temos de assegurar sua segurança, para que você assegure a nossa. O protocolo lhe será transmitido dentro de alguns minutos, na sala de conferência, e terá apenas seis meses para a conclusão e produção do Anglo-7.
- Entendido, sim senhor.
No quarto mês de trabalho duro, as notícias eram boas. O quadro da filha do homem havia se estabilizado e a doença fora controlada. Seu sotaque já lhe rendia alguns passeios pela rua do centro e um pequeno apartamento para passar os finais de semana, sempre acompanhado por um dos militares. O contato com seus familiares continuava restrito, e, o Anglo-7 já estava em sua fase final de produção.
Passado duas semanas, com tudo pronto, teve a notícia de que a eficácia do Anglo-7 havia sido comprovada em alto mar. Em poucos dias, dizimaram boa parte do contingente bélico de seu país natal e já se preparavam uma invasão por solo, para se apossarem do território inimigo.
A única preocupação do homem era com sua família, que estava na linha de fogo. Seu maior temor seria o de ter construído uma arma letal que se vingaria contra seu próprio criador.  No país inimigo, sua única pessoa de confiança era um dos soldados da área de engenharia, o qual fez amizade. Sabia que aos sábados o soldado corria ao ar livre, próximo ao parque, no centro. Certo dia conseguiu uma brecha, e saiu desacompanhando, de encontro ao mesmo. Eram quase dez da manhã quando o avistou:
- Soldado, como vai?
- Bem, e o senhor, ainda com aquela ideia maluca?
- Preciso muito falar com eles, saber se está tudo bem.
- Olha, eu andei pesquisando e acho que posso te ajudar.
O soldado então passou algumas informações como endereço e procedimentos, e concluiu:
- A senha é "Cabo de Guerra", procure não se atrasar e não se esqueça: quarto B140. Você terá quinze minutos por dia. Detalhe, não seja pego.

Parte 4

A primeira vez que cruzou aquela porta azul serviu como uma prova de coragem. Na primeira semana fora apenas uma vez. Na segunda semana, mesmo procedimento, entregou o aparelho celular na entrada e entrou na B140. Desta vez, tomou ainda mais coragem e discou os números cedidos pelo soldado, 225225, em um velho aparelho de telefone fixo que ficava sobre a mesa. Uma atendente transferiu a ligação para uma central em seu país e então teve acesso para discar o número de casa.
- Alô? – Suspirou, ao ouvir a voz de sua esposa.
- Querida?
- É você? Meu deus! É você mesmo, amor?
- Sim meu amor, sou eu.
- Você... Você está vivo? Vocês... Vocês estão vivos?
- Mas é claro que sim, por que não estaríamos?
- Eles vieram aqui...
- Eles quem?
- Seus amigos do exército, eles vieram aqui e... Ah meu deus! Como ela esta? Como está nossa filhinha?
- Ela vai bem, seu quadro se estabilizou, está tudo bem sim!
- Minha nossa, graças a Deus!
- Mas, meu bem, o que eles disseram? – Nesse instante a mulher desabou num choro seco.
- O que eles disseram meu bem? Insistiu o homem.
- Olha, disseram que... Disseram que você estava trabalhando para o exército inimigo em troca do tratamento de nossa filha.
- Mas meu amor, eu... Eu... E você acreditou neles?
- Olha, eu não sei, eu já não sei de mais nada.
- E o que mais eles disseram?
- Disseram que estaria sendo perseguido e que foi enganado por um general das tropas do exercito inimigo... Isso é verdade meu amor?
-Enganado? Exército? Não estou entendendo meu bem, eu vim aqui para cuidar da saúde de nossa filhinha.
- Eles também disseram que, oh meu deus!...
- O que, meu bem? Diga.
- Disseram que vocês foram mortos...
- Mas não fomos. Estamos a salvo.
- Você já viu nossa filhinha?
- Meu bem, eu tenho que aguardar ela sair da UTI.
- Você a viu? Você a tocou? Me diga, me responda...
            - Meu bem...
- Eu sei que você trabalhou para o exército inimigo na construção de uma arma, vi fotos. Acho que sua vida está em perigo.
- Perigo?
- Sim, um dos soldados foi incumbido de eliminar vocês.
- Mas...
- A missão dele foi fazer amizade e te entregar para a infantaria, mas antes teria de... Teria de exterminar nossa filhinha.
- Mas que absurdo, meu deus!
- Iriam te levar para ser exterminado. Mas pelo visto, graças a Deus ainda está a salvo. Essa informação vazou há cinco dias.
- Levar para onde amor, o que mais sabe?
- Olha, por favor, me ouça. Não sei como conseguiu falar comigo, mas corra, salve nossa filha se ainda tiver tempo. Você foi usado. Descobri que nossa filha... Descobri que ela foi infectada por eles. Eles fizeram isso para que você trabalhasse para eles, e eles são responsáveis por nossa desgraça.
- Fique calma meu amor, eu preciso entender...
- Calma? Você sabe o que essa arma tem feito?
- Me diga o que mais você sabe...
- Acho que te levarão para... S5. É isso, S5, e lá te exterminarão.
- Mas não entendi, para onde?
- S5.
A ligação caiu, os quinze minutos haviam se passado.
O homem alcançou seu paletó que havia apoiado na cadeira e vestiu-o novamente, ajustando a roupa em seu corpo. Saiu e trancou a porta, voltando com a chave para o mesmo bolso do paletó. Ao dobrar a esquina, se deparou com uma tropa de infantaria que havia tomado as ruas da cidade há algumas semanas.


Fim.

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