
Parte 1
Era tarde da noite, e o único som que se podia ouvir daquela rua sem saída era o dos passos desconcertados de um homem, que vagava
sorrateiramente. A cada poste de luz avançado, sua visão percorria os arredores com um ar desconfiado. Chegando ao seu destino - uma
porta metálica azul, no fim da rua - bateu por três vezes seguidas:
- A senha. – Berrou uma voz vinda do interior, fazendo com que o homem novamente corresse os olhos pela penumbra,
em busca talvez de testemunhas auditivas ou oculares.
O cômodo não possuía mais que um armário, uma mesa de canto com alguns objetos por cima, um frigobar e outra
cadeira simples de madeira e uma poltrona, onde ele se sentou. Suas mãos tremiam. Após alguns minutos, com o semblante estarrecido, ele se levantou. Alcançou seu paletó que havia apoiado numa cadeira e
vestiu-o novamente, ajustando a roupa em seu corpo. Saiu e trancou a porta,
voltando com a chave para o mesmo bolso do paletó. Ao passar pelo homem da
entrada, recolheu seu aparelho celular e o agradeceu. Era possível observar a
rua através de um pequeno monitor que transmitia as imagens de algumas câmeras externas.
Certificando-se de que não havia ninguém por ali, abriu então a porta azul e
refez seu trajeto até o início da rua sem saída, avançando de poste em poste
sempre a procura de, talvez, testemunhas.
Ao dobrar a esquina, se deparou com uma tropa
de infantaria que havia tomado as ruas da cidade há algumas semanas. Sua
primeira reação foi dar meia volta e seguir na direção oposta, mas chegou à
conclusão de que essa seria uma atitude muito suspeita e atrairia a atenção dos
soldados. De qualquer forma, seus passos se alentaram e novamente suava frio.
Um dos soldados estava fazendo o reconhecimento digital dos pedestres que ali passavam, em busca de pistas sobre o paradeiro de um líder político do país vizinho que
estaria se escondendo nas ruas da capital. Ao perceber a presença do homem, o
soldado caminhou tranquilamente em direção a ele, pedindo gentilmente que apresentasse
seus documentos e que o acompanhasse até uma viatura. O homem então retirou sua
carteira de um dos bolsos do paletó, enquanto acompanhava o soldado até o
veículo.
- O senhor não é daqui? – Perguntou o soldado,
desconfiado de seu leve sotaque.
- Não, mas moro aqui há mais de 45 anos, sou
praticamente um cidadão nato.
- Ok, senhor, pressione a palma de sua mão direita
contra essa tela, por favor. – Já num tom menos elegante. Isso queria dizer que
eles rastreariam cada passo dado pelo homem nas últimas quarenta e oito horas,
mas preferiam chamar de “procedimento regulamentar de acompanhamento a
suspeitos”. Em épocas como essa, qualquer um era considerado suspeito, diziam.
Após alguns minutos o soldado recebera um
comunicado pelo rádio e convocou um de seus recrutas para perto de si. Os dois
conversam e se aproximam do homem, enquanto ele aguardava calmamente pelo que
estava por vir.
- Queira nos acompanhar até a S5 senhor?
- Pois não. - A S5 era a “Sede da Infantaria do
5º Batalhão”, localizada no centro da capital. Não estavam longe de lá, mas
em tempos como este, isso significa voz de prisão preventiva, ou até coisa pior.
Parte 2
Alguns anos atrás. Era inverno, e a família do homem se reunia na
sala de espera do hospital central, enquanto aguardavam ansiosamente pelo médico. Em poucos minutos
receberiam uma notícia que mudaria tudo. O homem abraçava a esposa enquanto uma
de suas filhas chorava desconsoladamente, sendo acudida por uma das tias. Tudo
que diziam era que iria ficar tudo bem, mas, no fundo, sabiam que não.
Eis que a uma porta de correr se abre e surge
dela o médico responsável, com um semblante abatido. Todos pararam em frente ao
Doutor para receberem o pior. Após os cumprimentos formais, o médico
prosseguiu:
- Vejamos bem, nós analisamos e reanalisamos o
caso da filhinha de vocês. Estamos fazendo o possível para que... – Nesse
instante o médico buscou palavras. – Para que ela saia dessa situação, mas
infelizmente...
- Diga doutor.
- Infelizmente foi detectado um grande número
do agente infeccioso em sua corrente sanguínea, o que criará algumas barreiras
para o tratamento e...
- Doutor, quanto tempo ela tem? – Interrompeu o
homem.
- Veja bem, em casos como estes não asseguramos em mais de três meses a expectativa de sobrevida, devido ao quadro clínico.
- Pois bem, há algum tratamento que funcione em
nosso país? – Perguntou o homem.
- Ainda estamos engatinhando por esses campos.
A maioria das soluções são apenas experimentais. Mas, posso lhes adiantar uma
coisa, nossos vizinhos possuem métodos
eficazes para esse tratamento, porém, seria quase impossível transpor a barreira para chegar a tempo com ela até lá, e além do mais, teriam de colocá-la na
fila de espera, o que aumentaria mais ainda o risco dela não suportar.
- Sem mais Doutor, só preciso de um tempo para
me organizar.
O homem então saiu do hospital sozinho, pedindo
para que seus familiares aguardassem por sua volta. Foi até um posto de
telefone próximo e discou alguns números que guardava na memória:
- Pois não.
- Sou eu, a resposta é sim.
- Sim?
- Amanhã partiremos.
- Certo, mandaremos alguém para recepcioná-los.
- Afirmativo, seguiremos então o que foi combinado. – E
desligou o telefone subitamente, com um ar de desespero no rosto.
Ao retornar para o hospital, o homem novamente
solicitou a presença do Doutor, mas desta vez, em particular.
- Por favor, preciso que prepare a transferência
de minha filha para o dia de amanhã. Partirei com ela no voo do meio dia.
- Perfeitamente, estaremos providenciando tudo.
O senhor está tomando a decisão mais sábia para o momento. Espero que corra
tudo bem.
Parte 3
O homem partiu com a garota no voo do meio dia,
alcançando território estrangeiro em menos de duas horas. Ao tocar o solo,
percebeu que haviam dois carros à espera deles no hangar. Saindo do avião,
foram separados, e cada um recebeu uma cópia de documentos de identificação
novos, tomando rumos diferentes. A garota foi encaminhada para o hospital
militar, como disseram, para uma unidade especializada em reverter o quadro da
doença que fora produto da guerra entre as duas nações. A doença, uma espécie
de infecção não contagiosa que degenera o cérebro e vai reduzindo aos poucos a
funcionalidade dos sentidos. O quadro da garota já estava bastante avançado e
sua única esperança seria o tratamento reversivo intenso, criado por
engenheiros geneticistas da nação inimiga.
O homem era também um engenheiro, porém este de
mísseis, e fora contratado pelo exército inimigo para concluir o desenvolvimento
de uma nova arma biológica de larga escala. De início, sua resposta fora
negativa, porém, após o adoecimento de sua caçula, ao ser exposta ao vírus da guerra, o
homem acabou tendo que aceitar trabalhar a favor do exército inimigo. O veículo
andou por algumas horas no meio do nada.
Chegaram ao pátio do que parecia ser um grande
armazém. O homem aguardava dentro do carro enquanto alguns soldados se
comunicavam entre si. O carro então avançou até o portão principal, onde todos
desceram e adentraram em um grande galpão. Foram encaminhados então para um
elevador industrial, onde homens armados operavam as alavancas. Após descerem por
sete andares, o elevador parou e os soldados encaminharam o homem para uma
pequena porta, onde, do outro lado, o general chefe das operações da construção
da arma biológica o aguardava:
- Senhor F., quanta honra. – Falou o general,
um homem já de meia idade, com ar de superioridade.
- Sim senhor. Quando começo?
- Então está mesmo disposto a prosseguir.
- Senhor, sabe do quadro de minha filha. Eu
preciso...
- Sua filha estará em boas mãos, não se
preocupe. Quanto a você, nenhum contato com o mundo exterior e isso
inclui família. Sua identidade foi trocada quando pisou em nosso território,
terá aulas de nosso idioma para perder um pouco do sotaque até que possa andar
pelas ruas de nosso país como um de nós. Temos de assegurar sua segurança, para que você assegure a nossa. O protocolo lhe será transmitido dentro de alguns minutos, na sala de conferência, e terá apenas seis meses para a conclusão e produção do
Anglo-7.
- Entendido, sim senhor.
No quarto mês de trabalho duro, as notícias
eram boas. O quadro da filha do homem havia se estabilizado e a doença fora
controlada. Seu sotaque já lhe rendia alguns passeios pela rua do centro e um
pequeno apartamento para passar os finais de semana, sempre acompanhado por um
dos militares. O contato com seus familiares continuava restrito, e, o Anglo-7
já estava em sua fase final de produção.
Passado duas semanas, com tudo pronto, teve a
notícia de que a eficácia do Anglo-7 havia sido comprovada em alto mar. Em poucos dias, dizimaram boa parte do contingente bélico de seu país natal e já se preparavam uma
invasão por solo, para se apossarem do território inimigo.
A única preocupação do homem era com sua
família, que estava na linha de fogo. Seu maior temor seria o de ter construído
uma arma letal que se vingaria contra seu próprio criador. No país inimigo, sua única pessoa de
confiança era um dos soldados da área de engenharia, o qual fez amizade. Sabia
que aos sábados o soldado corria ao ar livre, próximo ao parque, no centro. Certo dia conseguiu uma brecha, e saiu desacompanhando, de encontro ao mesmo. Eram quase dez da manhã quando o
avistou:
- Soldado, como vai?
- Bem, e o senhor, ainda com aquela ideia
maluca?
- Preciso muito falar com eles, saber se está
tudo bem.
- Olha, eu andei pesquisando e acho que posso
te ajudar.
O soldado então passou algumas informações como
endereço e procedimentos, e concluiu:
- A senha é "Cabo de Guerra", procure não se
atrasar e não se esqueça: quarto B140. Você terá quinze minutos por dia. Detalhe,
não seja pego.
Parte 4
A primeira vez que cruzou aquela porta azul
serviu como uma prova de coragem. Na primeira semana fora apenas uma vez. Na
segunda semana, mesmo procedimento, entregou o aparelho celular na entrada e entrou na B140. Desta vez, tomou ainda mais coragem e discou os números cedidos
pelo soldado, 225225, em um velho aparelho de telefone fixo que ficava sobre a
mesa. Uma atendente transferiu a ligação para uma central em seu país e então teve
acesso para discar o número de casa.
- Alô? – Suspirou, ao ouvir a voz de sua
esposa.
- Querida?
- É você? Meu deus! É você mesmo, amor?
- Sim meu amor, sou eu.
- Você... Você está vivo? Vocês... Vocês estão
vivos?
- Mas é claro que sim, por que não estaríamos?
- Eles vieram aqui...
- Eles quem?
- Seus amigos do exército, eles vieram aqui
e... Ah meu deus! Como ela esta? Como está nossa filhinha?
- Ela vai bem, seu quadro se estabilizou, está
tudo bem sim!
- Minha nossa, graças a Deus!
- Mas, meu bem, o que eles disseram? – Nesse
instante a mulher desabou num choro seco.
- O que eles disseram meu bem? Insistiu o
homem.
- Olha, disseram que... Disseram que você
estava trabalhando para o exército inimigo em troca do tratamento de nossa
filha.
- Mas meu amor, eu... Eu... E você acreditou
neles?
- Olha, eu não sei, eu já não sei de mais nada.
- E o que mais eles disseram?
- Disseram que estaria sendo perseguido e que
foi enganado por um general das tropas do exercito inimigo... Isso é verdade
meu amor?
-Enganado? Exército? Não estou entendendo meu
bem, eu vim aqui para cuidar da saúde de nossa filhinha.
- Eles também disseram que, oh meu deus!...
- O que, meu bem? Diga.
- Disseram que vocês foram mortos...
- Mas não fomos. Estamos a salvo.
- Você já viu nossa filhinha?
- Meu bem, eu tenho que aguardar ela sair da
UTI.
- Você a viu? Você a tocou? Me diga, me
responda...
- Meu bem...
- Eu sei que você trabalhou para o exército
inimigo na construção de uma arma, vi fotos. Acho que sua vida está em perigo.
- Perigo?
- Sim, um dos soldados foi incumbido de
eliminar vocês.
- Mas...
- A missão dele foi fazer amizade e te
entregar para a infantaria, mas antes teria de... Teria de exterminar nossa
filhinha.
- Mas que absurdo, meu deus!
- Iriam te levar para ser exterminado. Mas pelo
visto, graças a Deus ainda está a salvo. Essa informação vazou há cinco dias.
- Levar para onde amor, o que mais sabe?
- Olha, por favor, me ouça. Não sei como
conseguiu falar comigo, mas corra, salve nossa filha se ainda tiver tempo. Você
foi usado. Descobri que nossa filha... Descobri que ela foi infectada por eles.
Eles fizeram isso para que você trabalhasse para eles, e eles são responsáveis por nossa desgraça.
- Fique calma meu amor, eu preciso entender...
- Calma? Você sabe o que essa arma tem feito?
- Me diga o que mais você sabe...
- Acho que te levarão para... S5. É isso, S5, e lá te exterminarão.
- Mas não entendi, para
onde?
- S5.
A ligação caiu, os quinze minutos haviam se
passado.
O homem alcançou seu paletó que havia apoiado
na cadeira e vestiu-o novamente, ajustando a roupa em seu corpo. Saiu e trancou
a porta, voltando com a chave para o mesmo bolso do paletó. Ao dobrar a
esquina, se deparou com uma tropa de infantaria que havia tomado as ruas da
cidade há algumas semanas.
Fim.
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