
Um dia você acorda e vê que não está "tudo bem". Você olha à sua volta e repara coisas que antes não via. Você não sabe muito bem que dia isso de fato aconteceu, mas sabe que desde então, tudo está mudado para você. A partir daí, a vida começa a precisar de algum sentido. Você começa a se perguntar coisas que não aprendeu na escola e percebe que as respostas nem sempre irão te satisfazer.
Alguns questionamentos começam a surgir dentro de casa, por ser um ambiente mais próximo, com pequenos "por quês" que vão te lapidando, para que mais tarde possa entender melhor o mundo, a vida e tudo mais. Comigo não foi diferente, meus próprios primeiros "por quês" eram relacionados às coisas que afetavam meu dia a dia, como a religião, os costumes, os padrões seguidos, a falta de questionamento das pessoas de modo geral, as fraquezas e forças que constituem a raça humana etc.
Eu queria saber o por quê de vivermos em um caos inexplicável por nós mesmo, que tenta se reafirmar com argumentos não muito sólidos, beirando um colapso autodestrutivo. Alguns argumentos religiosos, por exemplo, eram tão mesquinhos para mim, que me davam a impressão de tratarem seus questionadores como "inocentes", por se questionarem de tais absurdos (por exemplo, quando me diziam que era pecado questionar a existência de deus, e como punição eu iria parar no inferno). Outros argumentos se contradiziam e me mostravam o quão frágil somos ao compreender a realidade. Paradigmas da vida e da morte, explicações diferentes para eventos iguais e um contingente de pessoas cultas afirmando saber pouco, em vista de uma maioria ignorante transbordando de certezas.
Tudo isso serviu para me deixar, de início, inseguro quanto ao meu futuro. Para mim, eu teria que começar a aceitar tudo que me era ensinado, sem questionar muito, para poder viver uma vida normal, pois, do contrário, seria taxado de anormal e provavelmente seria sempre excluído. Com o tempo, percebi que a cada nova lição que eu aprendia e a cada novo questionamento respondido, mais longe eu estava de saber o que realmente está por trás de tudo isso. Isso me alarmava muito, mas tudo depende da forma como cada um de nós irá lidar com as informações que assimila.
Resolvi então passar a viver a vida de uma forma à parte. Comecei a observar mais, a me conter mais, a evitar desgastes desnecessários, a aprender o que as entrelinhas tentavam ensinar. Não, não digo que seja fácil viver assim, pois nem sempre estamos despertos ou preparados para lidar com todas as situações que nos surgirão, mas afirmo que a partir do momento em que resolvi não interferir na vida de ninguém para viver a minha própria, as coisas começaram a fazer mais sentido para mim. Os detalhes, que me eram importantes no início, passaram a ser apenas vestígios de uma imaturidade em fase de mudanças.
A vida, que eu percebia antes, ficou pra trás, mas isso não significa que obtive sucesso. Continuo a mesma pessoa, com os mesmos defeitos, ou até piores, assombrado pelos mesmo "monstros", porém hoje sofro menos com as revoltas que me afingiam no passado. No futuro, talvez ainda possa mudar a forma como vejo a vida, mas no momento, o que me torna quem sou é apenas o conjunto de experiências que me trouxeram até aqui. Ontem eu sabia menos que hoje, mas, ao mesmo tempo, tudo que sei será sempre insuficiente para mim. (Continua....)
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