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terça-feira, 7 de outubro de 2014

Semi-Contos #3 - O Diário de Judith


O Diário de Judith

É até pecado tocar nesse assunto, pois Judith faleceu há dois anos, deixando uma breve história gravada nas páginas de um diário cujos fragmentos se desdobram em minha memória desde o momento em que tomei conhecimento dos mesmos: 

Era albina e pobrezinha de tudo, quando bebê. Na infância, fez nome entre o corpo docente de mais de dez instituições por onde passou, como criança-problema. Seu destino era o mesmo das outras garotas que faziam parte da gangue. Estavam sentenciadas ao fracasso, pois eram comprometidas com o desleixo, chefiavam o desprezo e transpiravam revolta: até hoje não se sabe de que, ou de quem. As coisas começaram a mudar para Judith quando ela fez quinze anos e ganhou um diário. Até então, não sabia que sua imaginação poderia criar um mundo todo novo e diferente naquela alvura de papel. Nos primeiros dias não era possível compreender o que ela escrevia. Sua caligrafia era pobre, estilo garrancho, e não desfrutava de letras reconhecíveis no alfabeto. Era uma espécie de emaranhado de rabiscos emotivos, onde momentos negativos e estressantes eram representados graficamente por riscos mais bruscos e pontiagudos, enquanto que bons momentos eram representados por riscos amenos e arredondados. Era um diário bastante riscado. No primeiro mês ela descrevia apenas os fatos mais marcantes do dia, como as brigas com a mãe, os desentendimentos com o padrasto e a rotina da escola. Depois, começou a fantasiar uma realidade que não era a dela, com amigos inventados e uma aparente felicidade, ainda inexistente. Era uma fuga da realidade, onde admiradores secretos frequentemente deixavam pistas e o mundo todo aguardava por suas ideias. Com o tempo e a maturidade, começou a relatar seus dias como eles realmente eram e de uma forma muito particular. Anotava nomes de pessoas e lugares, trechos e títulos de livros e de canções, frases e às vezes até estrofes inteiras. Suas páginas começaram a ficar poucas, para suas necessidades. Foi então que veio o segundo diário. Com esse, Judith teve mais carinho e cuidado. Vez e outra relia as páginas do diário antigo. Logo veio o terceiro, o quarto, o quinto, o vigésimo diário. Judith tinha uma estante só de diários, que ocupava uma parede inteira de seu quarto. Quando completou vinte anos, resolveu escrever um livro. Sua primeira ideia fora negada. O editor que havia entrevistado a convidou para sair. Pedido aceito. Ela o levou para uma conversa, ele a levou para o altar. Foi o primeiro amor de Judith. Foi o quinto casamento do editor. Eles se deram bem por alguns anos, até Judith finalmente conseguir concluir um novo livro, enfim lançado. Sucesso certo. Se tratava do próprio diário de Judith, editado por ele e reformulado por ela. Passado alguns anos, o editor conheceu uma nova "Judith" de vinte anos e abandou a Judith do diário, agora já com trinta anos. Judith continuou escrevendo, tanto em seu diário, quanto para outros projetos. Levava uma vida modesta depois da mudança para o litoral. Conheceu novo amor e deu a luz a gêmeos. Seu primeiro livro lhe rendeu alguns trocados, porém, não mais que o segundo. Com a publicação do segundo livro, Judith começou a saborear o prazer de ser recompensada por fazer o que realmente gosta. E ela amava escrever. Não fosse o diário, ainda estaria nas ruas com as garotas da gangue, brigando por migalhas. Então conheceu o mundo. De Veneza à Amazônia, do Saara à Muralha da China. Judith faleceu por conta de uma complicação clínica, aos dezesseis, após a descoberta da leucemia. Essa talvez foi a história que ela gostaria de ter vivido, por isso a escreveu. Passava suas tardes enfurnada em seu quarto, fantasiando um futuro incerto para uma garota que nunca teve nada, apenas imaginação. Sua única herança deixada foram essas anotações que guardamos com muito carinho. Nesse instante, o padrasto faz uma pausa e a mãe desabou num pranto seco. O velório estava quase vazio.

@tsachetto postado originalmente em 31-08-2014

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