
À Deriva
Eu estava sentado à beira da calçada, rendido e já farto de ter que aceitar aquela ideia de que as pessoas mudam, mas suas memórias não. Seria impossível provar para alguém qualquer coisa sob aquela circunstância. Meu mundo tinha se desmoronado naquele dia. Estávamos há uns três meses sem nos vermos. Michelle me abandonou bem no momento mais difícil de minha vida e eu apenas deixei com que a distância nos separasse. Não tive como correr atrás e nem como mudar as coisas. Eu estava à deriva, como uma folha seca no outono, que cai do alto de um galho e vai sendo guiada pelo vento. Condenaram-me injustamente por participação indireta em um crime internacional. A empresa em que eu trabalhava estava envolvida com organizações mafiosas que desviavam recursos do governo. Eu era o bode expiatório de todas aquelas operações sigilosas que tive que assinar. Reformulei toda minha vida ao nos casarmos, para adaptar minha realidade à dela. Tivemos várias discussões prévias e influências familiares até entrarmos nos eixos. Chegamos ao nosso limite, até termos a prova de que o amor superaria todas aquelas barreiras. Tarde demais. Durante o julgamento ela estava inquieta. Sua expressão me dizia que não acreditava em mim, que não depositava esperanças em minhas palavras. Detive-me ao tentar convencê-lá. Então me vi cercado. Meu casamento estava em jogo e minha vida pública também. Tudo estava desabando à minha frente. Foi então que tomei a decisão mais errada de minha vida. Fugi para o México. Eu não tive culhões para enfrentar as verdades que me encaravam. Não tive saída. Meu nome entrou para a lista dos mais procurados pela polícia. Tenho sorte de não ter reproduzido outros, como eu. Na verdade, o mundo tem sorte disso. Era minha responsabilidade não contaminar ainda mais a espécie. Ao saber da notícia de que ela estava doente, recorri ao auxilio internacional na embaixada. Meu futuro dependia dela. Nenhum sucesso. Então voltei clandestinamente para meu país, em busca de vê-lá pela ultima vez. Ela não resistiu, era tarde demais para uma ultima e fracassada esperança. Fui detido na rua, ao me reconheceram alguns dias depois. Hoje cumpro pena perpétua e me arrependo amargamente de não ter enfrentado meus problemas reais na época em que tive a chance. As pessoas, elas mudam, mas suas memórias continuam, perpétuas, assim com minha pena. É tudo o que me restou.
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