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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O Segredo da Caixa (Parte 1)

O Segredo da Caixa
I
O Reencontro

Tudo parecia bem naquela manhã de domingo. O aroma do café recém-fervido percorria os corredores até encontrar minhas narinas e o cheirinho das torradas estavam convidativos. Olhei pela janela e vi um céu completamente azul, sem nuvens. Puxei novamente as cobertas e me virei na cama, com os braços unidos ao corpo e as pernas encolhidas. Perdido em pensamentos, acabei me distraindo com a minha própria respiração, lenta, o que foi me deixando novamente sonolento, porém, não conseguia dormir, temendo voltar a ter um sonho recorrente que me perseguia há dias.

Aguardei por algum sinal de vida, que me resgatasse dali, quando ouvi mamãe colocar alguns talheres na mesa e em seguida gritar – O café está servido, venha, antes que esfrie! - Isso foi o suficiente para me reanimar. Tornei a me virar na cama, encarei o teto por alguns segundos, sorrindo, unindo as mãos e brincando com os polegares. Logo respondi – Estou indo!

Levantei-me, vesti uma camiseta branca e uma bermuda bege, fui ao banheiro me lavar e em seguida caminhei lentamente até a cozinha, parando próximo à porta, interrompido pelo som de uma conversa abafada que vinha de lá. Não sabia que receberíamos visita pela manhã. Curioso, resolvi espiar.
Lá estava ela, sentada ao lado de mamãe, com um vestido azul florido, de pernas cruzadas, cabelos presos e segurando uma xícara que exalava uma fumaça que se misturava à luz do sol que entrava pela janela, formando desenhos interessantes no ar.

Eu sabia que não era hora de revê-la, ou rever qualquer um que me fizesse relembrar o passado, porém isso teria de acontecer, algum dia, e nada melhor que uma bela manhã de domingo como aquela. Com passos cuidadosos, voltei do banheiro, encarando o espelho em busca de qualquer detalhe que havia deixado pra trás. A porta se fechou causando um tremendo estrondo, devido ao vento que entrava pelo basculante. Aproximei-me para fechá-lo e observei que mamãe agora andava sozinha no quintal, em direção ao varal, para estender algumas roupas que carregava numa bacia. Talvez tenha feito isso de propósito, após o barulho da porta, para nos dar um pouco de privacidade.

Queria passar um ar de segurança e a impressão de que eu estava bem. Entrei na cozinha e ela virou-se em minha direção com aquele sorriso cativante de sempre, apoiando a xícara sobre a mesa. Perdi-me por alguns milésimos de segundo tentando decifrar o enigma daquele sorriso que não via há tempos. Não percebi que já estávamos a menos de meio metro um do outro. Ela se pôs de pé e nos abraçamos, um longo e aconchegante abraço seguido de carinhosas palavras:
 – Papai deve estar sentindo sua falta, você era tão importante lá. - Apertando mais ainda seu corpo contra o meu. – Acho que aquele lugar nunca mais será o mesmo, nem em mil anos (falou, revirando olhos). Está tudo tão sombrio, estou perdida, sem entender, você faz falta.

Eu estava atordoado com seu perfume e com sua doce voz, novamente tão próxima dos meus ouvidos.
       - É, acho que terão que se acostumar com a minha ausência. Daqui pouco vem outro que ocupará meu lugar, é tudo passageiro.
Ela se afastou bruscamente, mas ainda com as mãos repousadas sobre meus ombros e o corpo colado ao meu, me encarando com um olhar fechado e um sorriso de canto de boca. – Bobo. Você jura que não volta mais?
- Sim Samantha. Não tenho mais condições de encarar o sr. Bill. Foi tudo tão depressa. Você já conversou com ele?
-Mais ou menos, ele não me pareceu contente, apenas disse que você havia saído. Vim o mais rápido que pude.

Sentamo-nos e ela segurava minhas mãos, com um semblante abatido e a cabeça tombada um pouquinho pra direita, como um cãozinho triste esperando por algo que eu não poderia dá-la naquele momento. Servi café em uma xícara e ela pegou uma torrada. Enquanto mastigava, me encarava. Ficamos algum tempo sem nada dizer, apenas nos lamentando com olhares cumpridos e expressões repuxadas com a boca.

Para quebrar o silêncio, ela apoiou um dos cotovelos delicadamente sobre a mesa, deitando sua cabeça sobre as mãos unidas, e disse;
       -Passei no seu apartamento duas vezes essa semana e vi que não estava. Hoje, novamente fui até lá, então resolvi visitar sua mãe pra ver se ela sabia de algo, e acabei te encontrando.
       -É, faz uma semana que me hospedei aqui, estava sentindo falta da comida e do tratamento que só mamãe sabe dar. Mas está tudo bem...
Rimos por alguns instantes e ela olhou o relógio.
       -Está na minha hora, tenho que te entregar uma coisinha que ficou lá fora (apontando com o polegar em direção à porta), no carro, eu não esperava te encontrar aqui. - Agora num tom mais sério.
       -Ok!, eu te acompanho até o jardim.

Ao pisar na grama, pude sentir de volta a sensação do mundo externo. É estranho, mas havia uma semana que eu não saía por aquela porta. O barulho dos carros, as crianças da vizinhança, o vento nas árvores, estava tudo tão distante e de repente volto a ter contato com a realidade. Ela abriu o porta-malas e havia uma grande caixa de papelão, lacrada com fitas adesivas cinzas e no topo estava escrito meu nome, à tinta de pincel azul.
       -Coisinha, hum? Perguntei, e rimos novamente.
       -É. O pessoal antigo queria te entregar isso e precisavam de um voluntário. Papai havia levado pra casa e... Bom, aqui estou eu e aqui está a sua “coisinha”!
Samantha se despediu com mais um abraço firme e aconchegante e logo se foi, dizendo apenas – Se cuida!.

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