O Segredo da Caixa
I
O Reencontro
Tudo parecia bem naquela manhã de domingo. O aroma do café
recém-fervido percorria os corredores até encontrar minhas narinas e o
cheirinho das torradas estavam convidativos. Olhei pela janela e vi um céu completamente azul,
sem nuvens. Puxei novamente as cobertas e me virei na cama, com os braços
unidos ao corpo e as pernas encolhidas. Perdido em pensamentos, acabei me
distraindo com a minha própria respiração, lenta, o que foi me deixando
novamente sonolento, porém, não conseguia dormir, temendo voltar a ter um sonho
recorrente que me perseguia há dias.
Aguardei por algum sinal de vida, que me resgatasse dali, quando ouvi mamãe colocar alguns talheres na mesa e em seguida gritar – O café
está servido, venha, antes que esfrie! - Isso foi o suficiente para me reanimar. Tornei a me virar na cama, encarei o teto por alguns segundos,
sorrindo, unindo as mãos e brincando com os polegares. Logo respondi – Estou
indo!
Levantei-me, vesti uma camiseta branca e uma bermuda bege, fui ao
banheiro me lavar e em seguida caminhei lentamente até a cozinha, parando próximo
à porta, interrompido pelo som de uma conversa abafada que vinha de lá. Não
sabia que receberíamos visita pela manhã. Curioso, resolvi espiar.
Lá estava ela, sentada ao lado de mamãe, com um vestido azul
florido, de pernas cruzadas, cabelos presos e segurando uma xícara que exalava uma
fumaça que se misturava à luz do sol que entrava pela janela, formando desenhos
interessantes no ar.
Eu sabia que não era hora de revê-la, ou rever qualquer um que me
fizesse relembrar o passado, porém isso teria de acontecer, algum dia, e nada
melhor que uma bela manhã de domingo como aquela. Com passos cuidadosos, voltei
do banheiro, encarando o espelho em busca de qualquer detalhe que havia deixado
pra trás. A porta se fechou causando um tremendo estrondo, devido ao vento que
entrava pelo basculante. Aproximei-me para fechá-lo e observei que
mamãe agora andava sozinha no quintal, em direção ao varal, para estender algumas
roupas que carregava numa bacia. Talvez tenha
feito isso de propósito, após o barulho da porta, para nos dar um pouco de privacidade.
Queria passar um ar de segurança e a impressão de que eu estava bem.
Entrei na cozinha e ela virou-se em minha direção com aquele sorriso cativante de sempre,
apoiando a xícara sobre a mesa. Perdi-me por alguns milésimos de segundo
tentando decifrar o enigma daquele sorriso que não via há tempos. Não percebi
que já estávamos a menos de meio metro um do outro. Ela se pôs de pé e nos
abraçamos, um longo e aconchegante abraço seguido de carinhosas palavras:
– Papai
deve estar sentindo sua falta, você era tão importante lá. - Apertando mais ainda
seu corpo contra o meu. – Acho que aquele lugar nunca mais será o mesmo, nem em
mil anos (falou, revirando olhos). Está tudo tão sombrio, estou perdida, sem
entender, você faz falta.
Eu estava atordoado com seu perfume e com sua doce voz, novamente
tão próxima dos meus ouvidos.
- É, acho que terão que se acostumar com a minha ausência. Daqui pouco vem outro que ocupará meu
lugar, é tudo passageiro.
Ela se afastou bruscamente, mas ainda com as mãos repousadas sobre
meus ombros e o corpo colado ao meu, me encarando com um olhar fechado e um sorriso de
canto de boca. – Bobo. Você jura que não volta mais?
- Sim Samantha. Não tenho mais condições de
encarar o sr. Bill. Foi tudo tão depressa. Você já conversou com ele?
-Mais ou menos, ele não me pareceu contente, apenas
disse que você havia saído. Vim o mais rápido que pude.
Sentamo-nos e ela segurava minhas mãos, com um semblante abatido e a
cabeça tombada um pouquinho pra direita, como um cãozinho triste esperando por
algo que eu não poderia dá-la naquele momento. Servi café em uma xícara e ela pegou uma torrada. Enquanto mastigava,
me encarava. Ficamos algum tempo sem nada dizer, apenas nos lamentando com olhares cumpridos e expressões repuxadas com a boca.
Para quebrar o silêncio, ela apoiou um dos cotovelos delicadamente
sobre a mesa, deitando sua cabeça sobre as mãos unidas, e disse;
-Passei no seu
apartamento duas vezes essa semana e vi que não estava. Hoje, novamente fui até
lá, então resolvi visitar sua mãe pra ver se ela sabia de algo, e acabei te
encontrando.
-É, faz uma semana que me
hospedei aqui, estava sentindo falta da comida e do tratamento que só mamãe
sabe dar. Mas está tudo bem...
Rimos por alguns instantes e ela olhou o relógio.
-Está na minha hora,
tenho que te entregar uma coisinha que ficou lá fora (apontando com o polegar
em direção à porta), no carro, eu não esperava te encontrar aqui. - Agora num tom
mais sério.
-Ok!, eu te acompanho até
o jardim.
Ao pisar na grama, pude sentir de volta a sensação do mundo externo. É estranho, mas havia
uma semana que eu não saía por aquela porta. O barulho dos carros, as crianças
da vizinhança, o vento nas árvores, estava tudo tão distante e de repente volto
a ter contato com a realidade. Ela abriu o porta-malas e havia uma grande caixa
de papelão, lacrada com fitas adesivas cinzas e no topo estava escrito meu nome,
à tinta de pincel azul.
-Coisinha, hum? Perguntei,
e rimos novamente.
-É. O pessoal antigo
queria te entregar isso e precisavam de um voluntário. Papai havia levado pra
casa e... Bom, aqui estou eu e aqui está a sua “coisinha”!
Samantha se despediu com mais um abraço firme e aconchegante e logo se
foi, dizendo apenas – Se cuida!.
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